Calma, muita calma

As vaias recebidas pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na última sexta-feira, foram o deleite dos colunistas políticos da “grande imprensa”. Mervais, Lúcias, Catanhêdes, Rossis etc adoraram a nova pauta.
Polêmicas à parte, as vaias só se configuram abalo na popularidade de Lula àqueles que assim desejam interpretá-la. A cerimônia de abertura dos jogos Pan-Americanos foi uma festa cheia, os ingressos foram comprados por empresas e distribuídos (acredito que na forma de pagamento) aos funcionários.
Ou seja, a classe que lá estava não votou no petista nas últimas eleições. No entanto, a votação recebida pelo presidente no Estado foi alta, cerca de 70%. Não obstante, atribuir aos pobres “protegidos pelo Bolsa-Família” (desculpa de despeitado) a vitória é, na melhor das hipóteses, burrice.
Lula já é acostumado a receber ovações negativas, inclusive, em estádios. Mario Ségio Conti, no livro Notícias do Planalto, conta que o, à época, candidato foi ao estádio do Morumbi, para ver a final do Campeonato Brasileiro:
Na entrada do estádio, deu entrevistas a repórteres de rádio dizendo que era corintiano mas, no Rio, torcia para o Vasco, e seguiu para o setor de cadeiras cativas. Lá sentou-se: um candidato operário, de esquerda, junto à classe média alta (detentora das cativas), um corintiano no meio de são-paulinos que acabara de dizer que torceria para o Vasco. Foi saudado com a maior vaia que jamais ouviu e os gritos de “Au, au, au, Lula pro Mobral!” e “Brasil, urgente, Lula pra semente!”. (CONTI. 1999: 272).
Por que seria diferente no Rio de Janeiro? Era a mesma classe. O candidato de outrora agora é presidente. É o mesmo? Não. Mudou para pior, mas ainda é o melhor. Afinal, foi a tal “classe média alta” que em 1990 elegeu o, atual senador, Fernando Collor de Melo. Agora, ainda me pergunto, as vaias assustam alguém? A mim, entristecem.
Cabe uma nota de rodapé. O solerte público, que vaiou Lula, dialogou com o presidente da Odepa - Organização desportiva pan-americana. Seria normal, mas o mexicano Mario Raña falou Hoy (Hoje em espanhol) e ouviu um belo e sonoro OI!
Escrito por Luiz Humberto P.V. Neto às 14h23
[]
[envie esta mensagem]
[link]

Ignácio Ramonet e cultura
O geopólítico frânces discute a cultura da dominação e a globalização no seminário, em Brasília.
Na abertura, nessa quarta-feira, do Seminário Internacional sobre Diversidade Cultural, aconteceu a palestra do editor do jornal francês Le monde diplomatic, Ignácio Ramonet.
Ramonet, que é também especialista em geopolítica, iniciou a palestra questionando se há interatividade entre os conceitos de globalização e diversidade. Para ele, as culturas hegemônicas aniquilam a diversidade, através da violência simbólica.
O francês também disse que a globalização não é apenas uma dinâmica enconômica e sim uma hegemônia. Para Ramonet, vive-se na "era da globalização". Ele comenta sobre a "chantagem da globalização", que, através da máscara da modernização, impede que se oponha a ela.
Ignácio Ramonet acredita que para a globalização, o ideal é a mercantilização do mundo, "tudo deve ser submetido as leis de oferta e procura" e esta vai, "segundo os neo-liberais, definir o que é cultura ou não".
Mercantilização da cultura
Este processo configura ameaça à diversidade cultural. Países ricos impõem seus conceitos culturais. Para Ramonet, "as manifestações culturais, atualmente, baseiam-se em lógicas industriais". Dentro deste pensamento, o editor lembrou os impactos econômicos do processo. Segundo ele, "a sociedade que consome a cultura de um país hegemônico consome produtos do mesmo".
Ramonet disse, ainda, que para as culturas minoritárias sobreviverem, no mundo atual, elas têm que seguir as normas culturais hegemônicas, chegando-se a homogenização. Nas palavras do francês, é a "ocidentalização do mundo pela cultura de massa". Esta dominação, para o editor, geram reações violentas como o fundamentalismo, nacionalismo e xenofobismo.
Segundo ele, os principais opositores da globalização são os índios, camponeses e artistas.
Caso RCTV
Ignácio Ramonet comentou também a não renovação da concessão da rádio e telvisão Caracas. Segundo ele, o caso RCTV foi legal. "O governo tem direito, ainda mais quando a empresa exerce o monopólio. É função do Estado determinar o pluralismo midiático", afirmou.
Ramonet termina a palestra com um certo ar marxista, lembrando que todos os países dominados culturalmente, estão nas mãos das classes dominantes".
Escrito por Luiz Humberto P.V. Neto às 23h58
[]
[envie esta mensagem]
[link]

Recesso de trabalho
Comunico aos poucos, porém estimados leitores, que as já raras atualizações ficarão mais eventuais nos próximos dias. Dois motivos tenho eu (à la Mestre Yoda). Quais o são? O primeiro é fruto da minha nova aventura: estágio na Radiobrás - finalmente, saí do Sindicato dos Desempregados dos Presepas. O segundo é, na minha opinião, mais importante e correlato, de alguma forma, com o anterior.
Ouvi de algumas vozes o efeito, do ponto de vista perverso, da revolução tecnológica: os blogs criaram um novo problema ao ensino do jornalismo. Estudantes iniciaim, cada vez mais, dezenas de blogs, a opinião toma conta e suplanta a reportagem, vida e alma do jornalismo.
Para pesquisar e embasar uma idéia inicial sobre o tema, precisarei de tempo. Restam-me fins de semana e horários noturnos. Já me sinto como os jornalistas de longa data, daqueles que falam: "Como me falta tempo para fazer as coisas que gosto".
Escrito por Luiz Humberto P.V. Neto às 22h59
[]
[envie esta mensagem]
[link]

Sobre o aborto
A visita do Papa Bento XVI ao Brasil, além de contar com exaustiva exposição na mídia, reanimou a adormecida discussão sobre a legalização do aborto. O Santo Padre defendeu os dogmas da Igreja Católica, que incluem a não aceitação do divórcio, do aborto e do uso de preservativos.
Porém, o objetivo deste artigo não é discutir a validade dos preceitos católicos, mas sim a função que se deve esperar do Estado em um debate como o aborto. Obviamente, a Igreja Católica é ator demasiadamente importante no assunto. Segundo censo do IBGE, realizado em 2000, 73% da população nacional declarava-se católica, logo, os dogmas por ela pregados influenciam grande parte do pensamento da sociedade brasileira.
O artigo 19 da Constituição Federal fala, no primeiro parágrafo, que é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:
Estabelecer cultos religiosos, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma de lei, a colaboração de interesse público (BRASIL, Constituição. 1988: 27).
Ou seja, parte-se do princípio que o Estado seja laico. O antropólogo Roberto Arriada Lorea, no artigo Em defesa das liberdades laicas, publicado na Folha de S.Paulo¸ lembra que:
Em sociedades democráticas, não é papel do Estado fomentar doutrinas religiosas. (...) A laicidade do Estado impõe que a decisão seja acolhida pelo Ministério da Saúde, garantindo o pré-natal ou o acesso a um aborto legal e seguro (LOREA. 2007).
Desta forma, não cabe ao Estado atribuição moral à realização do aborto. O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, reconheceu que o aborto é "questão de saúde pública, uma ferida aberta na sociedade, pois milhares de mulheres morrem todos os anos em abortos inseguros" Portanto, é função do Estado, dentro de seu molde laico, garantir sistema de saúde pública que permita a realização do aborto de forma segura e com garantias a vida da mãe.
Contra-argumento a suposição acima é que o Estado deve refletir o pensamento da população. Pesquisa encomendada por Carta Capital e TV Bandeirantes, realizada pelo Instituto Vox Populi, mostra que 51% dos entrevistados não concordam com a condenação, em qualquer caso (estupros, risco de morte da mãe e ausência de assistência médica), do aborto pela Igreja Católica. Assim, pode-se concluir que caso o Estado adote a postura laica, exigida pela Constituição Federal, estaria de acordo com a maioria da sociedade brasileira.
Apesar de, em alguns casos, 51% da população concordar com o aborto, este tema não é consenso. A pesquisa do Vox Populi indica que interromper uma gravidez não desejada, sendo este o único motivo, conta com reprovação de 81% dos entrevistados. Portanto, em um plebiscito este tópico seria derrotado. Porém, de acordo com a antropóloga Débora Diniz, no artigo O papa e o aborto, uma democracia laica não necessita de consenso para regular o pluralismo moral (...) (DINIZ. 2007). Ou seja, o Estado para impedir o crescimento de clínicas de aborto ilegal e, conseqüentemente, a morte de mães, cidadãs brasileiras, deve agir e promover a legalização do aborto por outras vias que não o referendo.
Desta forma, de acordo com o exposto acima, minha conclusão é de que a o dilema moral do aborto é íntimo, de ética privada. A decisão de fazê-lo ou não é de atribuição da mãe. Portanto, não cabe ao Estado julgar moralmente o caso e sim oferecer condições legais e médicas para a realização do aborto sem riscos a paciente.
Bibliografia
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil: promulgada em 5 de outubro de 1988, com as alterações adotadas pelas Emendas Constitucionais de Revisão nº 1/92 a 44/2004 e pelas Emendas Constitucionais de Revisão nº 1 a 6/94. Brasília: Senado Federal, Subsecretaria de Edições Técnicas, 2004. 438 p.
DINIZ, Débora. O papa e o aborto. Correio Braziliense. Brasília, 12, maio, 2007. Caderno Opinião, 27.
LOREA, Roberto Arriada. Em defesa das liberdades laicas. Folha de S.Paulo. São Paulo, 12, maio, 2007. Caderno Brasil, Opinião, A3.
Revista Carta Capital. Número 443. 9, maio, 2007.
Escrito por Luiz Humberto P.V. Neto às 19h11
[]
[envie esta mensagem]
[link]

Interessante leitura
Coluna estreante, hoje, na Folha de S.Paulo.
ALBA ZALUAR
Balas, só de doce
VOLTEI RECENTEMENTE de Barcelona, cidade que me impressionou pela beleza da arquitetura e das obras de arte mas principalmente pela identificação que seus moradores têm com ela. Artistas estão na rua, nos prédios, nas obras de arte em cada canto mais espaçoso. Mas quase não se vêem estátuas de heróis. É uma cidade que preza a criatividade da beleza feita pelos seus artistas. E, na contramão dos fluxos predominantes da globalização, também em cada canto eu ouvia música brasileira. Até mesmo num desfile da festa de um santo ritmistas tocavam no ritmo das escolas de samba e cantavam "meu brasil brasileiro" em catalão, enquanto lançavam balas (de doce, é claro) na platéia! Chama-se a "dolça festa". Ora vejam só: a nossa música e o nosso espírito brincalhão adocicam a vida de Barcelona, enquanto aqui as balas, nada doces, matam. Eis um de nossos muitos paradoxos: nas cidades brasileiras onde os índices de criminalidade violenta cresceram tanto, a vida social nas vizinhanças já foi muito rica, tendo criado times de futebol, escolas de samba, grupos de maracatu, folias etc. Hoje, essa sociabilidade da alegria vem sendo ameaçada pelo crime organizado e pelos grupos armados, que, com suas balas letais, mudaram as regras de convivência nas vizinhanças pobres. Os pobres tinham então mais emprego e mais transporte público na rede ferroviária, montada para servi-los, além de policiamento feito pela guarda civil. Não se pode voltar ao passado, mas pode-se tentar mudar o presente. Um modo de recuperar a imagem das cidades para os próprios moradores e para o mundo pode ser planejado para recuperar a sociabilidade local. Isso exige que o fluxo de armas e balas amargas seja interrompido nas suas principais fontes: as quadrilhas de armeiros, a falta de controle de estoques nas Polícias Militares estaduais e nas Forças Armadas Brasileiras. Além disso, mudar as regras do policiamento ostensivo e investigativo, não só trocando a prioridade da repressão para a investigação mas transformando os procedimentos usados pelos policiais em suas atividades para assegurar o respeito ao cidadão. E vamos valorizar nas próprias cidades aquilo que leva a boa imagem do Brasil ao exterior: usar a estética e fazer dos produtos efêmeros dos desfiles algo mais perene para embelezá-las e homenagear seus criadores. Isso daria mais empregos para os jovens desocupados das áreas carentes em projeto de integração, mas um que atinge a raiz dos moradores das cidades onde surgiram vários gêneros musicais.
Escrito por Luiz Humberto P.V. Neto às 14h24
[]
[envie esta mensagem]
[link]

Decida você
Abaixo seguem duas matérias sobre o Relatório da Comissão Pastoral da Terra, referente ao ano de 2006. A primeira matéria, em azul, é do jornal Correio Brasiliense a segunda, em vermelho, da Agência Carta Maior. Ler com atenção as duas é uma aula de Jornalismo, e como lidar com dados é imprescindível àqueles que desejam escrever. Ou teria uma segunda intenção?
REFORMA AGRÁRIA Pastoral da Terra critica governo
Relatório da CPT revela que administração petista, equivocadamente, deu prioridade aos assentamentos na Região Norte. Mas é no Sul e Sudeste onde estão concentradas 66% das invasões feitas pelos sem-terra Ullisses Campbell Da equipe do Correio
Relatório divulgado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), entidade ligada à Igreja Católica, revela que o governo federal está assentando trabalhadores rurais no lugar errado. Segundo levantamento da CPT, nos últimos três anos, a Região Norte concentrou 66% de todos os assentamentos promovidos pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Por outro lado, 79% das ocupações no mesmo período ocorreram em outras regiões do país. Sul e Sudeste, por exemplo, concentraram apenas 7,5% dos novos assentamentos, embora concentrem 66% das invasões. Para o consultor da CPT, Carlos Walter Gonçalves, geógrafo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o governo do Lula executa uma reforma agrária idêntica à do governo militar, na década de 1970. “Ao priorizar a Região Norte, Lula lembra do slogan dos militares, que diziam que a Amazônia era uma terra sem homens para homens sem terra”, diz o geógrafo. “O governo está assentando no lugar errado”, conclui o filósofo da CPT, Antônio Canuto. Como a maior demanda dos sem-terra está no Sul e Sudeste, vêm dessas regiões os maiores índices de violência no campo, segundo registro da CPT. Atualmente, o Rio Grande do Sul é considerado um barril de pólvora por conta do excesso de sem-terra combinado com 8 milhões de hectares de terras devolutas só nos pampas gaúchos. “A atual reforma agrária revela uma estratégia governamental que reproduz a velha prática de substituir assentamentos pela simples colonização e regularização fundiária, contribuindo para o avanço do complexo da devastação que destrói a Amazônia”, criticou o padre Dirceu Luiz Fumagalli, coordenador da CPT. Dados O novo relatório Conflitos no Campo Brasil, divulgado ontem, mostra ainda que em 2006 houve aumento de 176% nas tentativas de assassinatos na área rural, comparado ao ano anterior. O número de trabalhadores rurais presos no ano passado aumentou 251% e o de trabalhadores assassinados subiu 3% no mesmo período. Já o índice de ameaças de morte no campo caiu 22%. Em compensação, o número de conflitos por terra, de ocupações e de acampamentos em todo o país diminuiu. Foram registradas 1.212 ocorrências em 2006, contra 1.304 no ano anterior. No ano passado, houve 761 conflitos, 384 ocupações e 67 acampamentos. Já o número de assassinatos sofreu ligeira alta. Passou de 38 mortes, em 2005, para 39, no ano passado. Contudo, houve diminuição de 10,54% no número de mortos em conseqüência dos conflitos: de 64, em 2005, para 57.
Escrito por Luiz Humberto P.V. Neto às 21h37
[]
[envie esta mensagem]
[link]

Decida você
CONFLITOS NO CAMPO 2006
‘Sem-terra organizado’ ajuda a reduzir violência, diz CPT
Amazônia manteve liderança no ranking da violência. O fato de que as organizações sociais são menos articuladas no Norte do que no Centro-Sul demonstra, segundo a CPT, que processo organizativo protege os trabalhadores e ajuda a reduzir a violência.
Verena Glass - Carta Maior
SÃO PAULO – Lançado nesta segunda-feira (16) em Brasília, o relatório anual da Comissão Pastoral da Terra (CPT) sobre conflitos no campo, referente a 2006, detectou uma pequena queda nas ocorrências relacionadas à posse, ao uso, à resistência e à luta pela terra em relação ao ano anterior. Mas a permanência das condições estruturalmente geradoras de violência, como a concentração da propriedade da terra e o avanço do modelo agroindustrial e das monoculturas de commodities, comumente vetores de violações dos direitos trabalhistas, não deve alterar as tensões que atingem tanto trabalhadores rurais quanto populações tradicionais.
Segundo a CPT, em relação a 2005, o ano passado teve uma diminuição de 12,13% nos índices de ocupações, 25,56% no surgimento de acampamentos e de 2,06% nos confrontos conflituosos. Também diminuíram as ameaças de morte contra trabalhadores, as torturas, e as denuncias e ações de libertação de trabalhadores escravos, bem como o número de pessoas resgatadas.
Por outro lado, houve um aumento na porcentagem de tentativas de assassinato (176,92%), assassinatos (2,63%) e prisões (251,34%) de trabalhadores rurais, envolvendo 72 pessoas no primeiro, 39 no segundo e 917 no terceiro caso. Também aumentou o número de trabalhadores superexplorados (96,12% maior do que em 2005, envolvendo 7.078 pessoas). Já quanto ao desrespeito à legislação trabalhista, as ocorrências registradas foram 62,50% menores (27 em 2006, contra 72 em 2005), mas aumentou em 167,05% o número de trabalhadores envolvidos. As mortes em acidentes de trabalho também aumentaram em 100%.
Na análise das ocorrências do ponto de vista regional, a CPT destaca alguns dados como indicativos importantes para a análise política do Relatório. A Amazônia – e em especial o Pará – manteve a liderança no ranking da violência, com o Centro-Sul na outra ponta. Já no tocante às mobilizações e ocupações, no geral a relação se inverte. O fato de que as organizações sociais são menos articuladas no Norte do que no Centro-Sul, aponta a CPT, demonstra que, por um lado, o processo organizativo é um mecanismo de proteção dos trabalhadores. Por outro, desmonta o argumento de que são os movimentos e suas ações os geradores de conflito e violência.
Responsável por acompanhar os conflitos no campo em nome do governo, a Ouvidoria Agrária Nacional, ligada ao Ministério do Desenvolvimento Agrário, não contradiz os números da CPT, apesar de apresentar números diferentes em seus levantamentos semestrais. “É uma diferença metodológica. Para medir os casos de assassinatos,por exemplo, nos baseamos estritamente em dados oficiais da Justiça e das delegacias. Já a CPT faz levantamento de dados a campo”, diz o ouvidor agrário nacional, desembargador Gercino José da Silva.
Questionado sobre os mecanismos adotados pelo governo para combater os conflitos agrários, o ouvidor apontou iniciativas como o Plano Nacional de Combate à Violência no Campo e o Programa Paz no Campo, que prevê a capacitação de mediadores de conflitos sociais, atendimento de denúncias, mediação de conflitos agrários e a implantação de ouvidorias agrárias nos estados.
Segundo o advogado do MST Patrick Mariano, iniciativas como a criação de órgãos ou comissões de negociação são válidas, mas funcionam apenas como paliativos. “Ao mesmo tempo também atestam a inoperância e incompetência do governo em solucionar a questão da má distribuição de terras que, no nosso ponto de vista, é o centro do problema. Enquanto o governo não avançar concretamente na reforma agrária, a violência no campo será uma constante e novas e outras formas paliativas de amenizar o grave quadro de conflito social no campo haverão de ser criadas, com nomes diferentes é claro”.
Escrito por Luiz Humberto P.V. Neto às 21h36
[]
[envie esta mensagem]
[link]

TV pública ou TV publica?
É evidentemente necessária a criação da Rede de TV Pública no Brasil. O primeiro ponto favorável a este sistema é a independência do capital. Adotando que as empresas midiáticas brasileiras são idôneas no processo de edição, a dificuldade em realizar programação educativa pela dependência da audiência e, principalmente, dos anunciantes.
Porém sabe-se que não é assim. Grandes corporações têm, em primeiro lugar, a necessidade da venda, e, como fator mais grave, a promiscuidade nas relações com políticos, em níveis estatal e federal. Por que lembrar esta questão? Respondo. O principal argumento dos velhos barões da mídia é o uso da TV pública como instrumento de propagando do governo de plantão. Ué, que contradição, afinal, é evidente que há anos a mídia privada defende e propaga os interesses de seus queridos patrões, sejam estes formais ou não.
Porém, não acho que a função da TV pública seja ser máquina propagandista do Governo. A função primordial desta é divulgar informações que fujam da programação da mídia tradicional. E, principalmente, acredito que a TV pública não terá o comportamento esperado pelos barões midiáticos. Conforme afirmou o presidente Lula, a TV não será puxa-saco. E, segundo matéria de O Globo¹, de hoje, “Lula diz que não está preocupado se a TV terá ou não audiência”. Acertou duas vezes.
Para criar contraditório à Globo, à Folha etc, a Rede de TV Pública justifica-se e legitima-se. Afinal, grandes democracias, por exemplo Alemanha e Inglaterra, têm TVs públicas. E segundo o novo ministro-chefe da Secretaria da Comunicação Social, Franklin Martins, a Tv pública terá como molde a BBC.
O debate está no começo, mas olho para o copo meio cheio. E digo, pelo menos começou. Como vai terminar, são cenas do próximo capítulo. Este, espero eu, pluralista e educativo.
[i] Lula quer TV sem ‘puxa-sacos’ e sem pichação. Chico de Gois e Luiza Dame. Jornal O Globo, dia 30/03/2007
Pê e Ésses
É interessante também acompanhar a edição de hoje dos “três principais jornais do país”. Lembra música Tudo Igual, de Lulu Santos.
O Mais!, que já elogiei tanto, pisou no tomate semana passada. Tratando especialmente de televisão esqueceu-se do principio básico do jornalismo. Onde estava o outro lado? Só Marcelo Tas esculhambando a TV pública? Ninguém defende? E depois reclamam de ideologização.
Outra dúvida que me incomoda é se não há medo de perder verbas publicitárias? A mídia privada vive sem o “tutu” do Governo? Sinceramente, desconfio.
Escrito por Luiz Humberto P.V. Neto às 17h43
[]
[envie esta mensagem]
[link]

Na contramão de tudo
Nos últimos domingos (18/02 e 04/03) o jornal Folha de S.Paulo trouxe importantes debates sobre a segurança pública, no caderno Mais!. Isso em primeira análise, pois um olhar mais aguçado mostra que esse colóquio pode ser sobre o jornalismo moderno.
Vamos ao fato: no dia 18/02 o suplemento dominical trouxe texto do filósofo e professor da USP Renato Janine Ribeiro entitulado Razão e Sensibilidade. No qual, Janine mostrava-se indignado com a morte do menino João Hélio. Ontem, 04/03, o Mais! trazia outro artigo de Renato Janine Ribeiro: Dizer o indizível . Não é a intenção desta análise, emitir opiniões sobre o conteúdo dos artigos.
O primeiro artigo causou verdadeira celeuma. Intelectuais, jornalistas, sites, blogs, advogados e leitores manifestaram-se favoráveis ou contrários ao professor. A favor, falou Olgária Matos; contra bradou Elio Gaspari , entre outros. Graças à polêmica, Renato Janine Ribeiro voltou às páginas do jornal ontem para defender sua posição.
Em sua defesa, no artigo Dizer o indizível, o professor mostrou-se muito mais ofendido com as críticas, do que preocupado em argumentar a favor da posição defendida noutro texto. Exemplo disso é a frase: “Intelectual não pode dizer só o que agrada”. Renato Janine Ribeiro é antigo freqüentador dos jornais paulistas e da mídia. Escreveu para o Estadão, Folha de S.Paulo e Bravo. O intelectual parece não acostumado à nova realidade da mídia, a mudança na unilateralidade da informação. As manifestações de jornalistas-blogueiros, como Luis Nassif e outros do Observatório da Imprensa, e, principalmente, leitores devem ter causado a sensação de desconforto que inspirou resposta tão indignada do filósofo.
Prova de que o monopólio da informação está no fim. Cada vez mais, a participação da outra mão do caminho informacional está presente. Fato que causa estranheza e raiva a velhos patrões, críticos e atores midiáticos.
Só aos Domingos?
Também me deixa com a pulga atrás da orelha como a mesma Folha que fez pífia cobertura eleitoral, é capaz de realizar excelente debate — aprofundado, inteligente e, mais do que nunca, importante — sobre a morte do menino João Hélio.
Faz algum tempo que os suplementos de fim de semana são a cereja do sundae dos jornais. Exemplos são o Pensar, Mais!, Aliás. Nesses cadernos discussões importantes ficam escondidas. De todo o episódio Renato Janine Ribeiro, pode-se aprender e apreender coisas extremamente importantes ao Jornalismo.
Suplementos são lidos e seus temas e textos merecem ocupar as principais páginas dos jornais. Acredito que nenhuma das ultimas reportagens de denuncias eleitorais da Folha foram tão lidas e debatidas quantos esses artigos. Então, se há competência para realiza-los, por que não fazer isso no jornal inteiro? A segmentação de temas não pode dividir a qualidade.
Pê e esses:
Aos interassados encainho links sobre o debate:
- Razão e Sensibilidade – Renato Janine Ribeiro
- O carrasco e sua cena – Manuel da Costa Pinto
- O professor acha que pena de morte é pouco – Elio Gaspari
- Antinomias do Brasil – Olgária Matos
- Vida inteligente na mídia – Luiz Weis
O artigo de ontem Dizer o indizível, de Renato Janine Ribeiro não foi disponibilizado na internet só para assinantes. Por isso, copio-o no post abaixo.
Escrito por Luiz Humberto P.V. Neto às 15h12
[]
[envie esta mensagem]
[link]

Artigo de Renato Janine Ribeiro
Dizer o indizível
O PROFESSOR DE ÉTICA DA USP AFIRMA QUE ESTÁ PAGANDO O PREÇO POR TER EXPOSTO SEUS SENTIMENTOS, MAS QUE NÃO CHEGOU A PROPOR NADA DE CONCRETO, E ACUSA OS FORMADORES DE OPINIÃO DE FAZEREM JOGO DE CENA E ESVAZIAREM O DEBATE PÚBLICO
RENATO JANINE RIBEIRO ESPECIAL PARA A FOLHA Meu artigo sobre o odioso assassínio de João Hélio [no Mais! de 18/2] causou uma polêmica que se desviou muito do que eu disse. Incomodou-me que na Folha se comentasse mais meu ensaio do que o crime contra a humanidade. Ao expor meus sentimentos (e era isso o que buscava ante o horror que vivia), deixei claro que estava tão perplexo que não cabia propor nada de concreto, tal como a pena de morte. Alguns leitores, entre eles jornalistas, acadêmicos e advogados, leram em minha indignação o que lhes conveio. Retomo o assunto. Porque disse que minha reação ao crime incluía desejar a morte de seus autores, quiseram entender que defendia sua execução sob tortura, a vingança ou mesmo o sadismo. Ora, "imaginar", "torcer" não é "propor, fazer, recomendar". Desde Freud, sabe-se que é normal sentir raiva. Humanizamo-nos quando aprendemos a nos conter. Mas conter-se não é varrer a emoção para baixo do tapete. Alguns, compreensivos, lamentaram que eu levasse a público o que deveria ter guardado para mim ou amigos. Discordo, embora pague um preço por ter dito em alto e bom som o que muitos, no fundo, também sentiram. Filosofar, como percebeu [o jornalista] Alberto Dines, se faz melhor em público. O esvaziamento e a esterilidade do espaço público, no Brasil, se deve muito ao fato de que fazemos cena: intelectuais, advogados, acadêmicos simulam uma sobriedade que não têm. O intelectual não pode dizer só o que agrada. Não ajuda, em nosso debate político e social, fingir uma civilização que tem pés de barro. Calar em público os sentimentos que se referem à vida pública induz à idéia do intelectual como quem pensa sem paixões, a esconder a face oculta de nossa comum humanidade.
Cisão radical Pessoas comuns que somos, nossa reflexão sobre o que fazer com crimes não pode se contentar com princípios impecáveis, a fundar leis que ninguém contesta, mas tampouco reconhece ou respeita. Nossa reflexão e ação não devem ser esterilizadas por uma cisão radical entre sentir e pensar. Pois, sem eu renunciar à defesa do processo justo, à importância da educação (mas que demora a dar resultados), vejo que os discursos construtivos esbarram num fato bruto, o horror, que é quase da ordem do indizível. O horror é sentimento típico do século 20. Palavras são poucas para enunciar os casos em que falha o grande projeto de Rousseau, a compaixão, a piedade: o padecer junto com qualquer ser vivo que sofra. O horrível dos infanticidas é a extinção cabal da compaixão. "Não sei, não tenho filho", disse um dos assassinos, ao lhe perguntarem o que imaginava sentirem os pais de João Hélio. Mas sentir com o outro não exige ter vivido pessoalmente a mesma experiência. Preocupa-me a permanência de um discurso acabado que condena a indignação, respondendo a ela com artigos de leis e uma moral pronta. Boa parte da população está tão revoltada que descrê do discurso, sincero ou hipócrita, da lei e de quem diz aplicá-la. A ausência do Estado se mede pela ausência do respeito e garantia dos direitos humanos de uma população que repudia o crime. Essa exaustão de nosso semi-Estado de Direito é grave, porque sem a confiança do povo soberano sobram só resíduos do direito. Uma democracia sem povo o que é? Expressar o horror, desnudar a própria alma sem censura, talvez sirva para destacar que há gritos que não podem ser silenciados e ignorados quando se discute a construção de uma nova sociedade. O crime hediondo não é um crime qualquer. Uma coisa é fazer do crime um meio de vida (própria), outra é fazer dele um meio de morte (alheia). O assassino cruel passou há muito dos limites da civilidade. Espanta que alguém deseje, para ele, tormentos? Desejar não é fazer. Mas uma indignação que o patriciado não escuta corrói as bases da pólis. A vingança privada só deu lugar à justiça pública após lento avanço nas relações sociais. E a justiça se manteve porque garantiu o cumprimento das leis. Mas se lembram da bóia-fria que matou aquele que violentou seu filhinho? Devia ela crer no devido processo legal? Mas assim não se devolve a justiça à vingança, não renuncia o poder público a qualquer utilidade? Pergunto: em que medida o Judiciário brasileiro beneficia o dia-a-dia de uma população que não desfruta do direito à segurança que, lembra-me Lenio Streck [professor e procurador de Justiça do Rio Grande do Sul], está na Constituição? Enquanto alguns publicistas exibem fé plena nas instituições, pura decência, a maioria se estarrece diante da barbárie. Admirando Rousseau, talvez o filósofo moral de maior grandeza, penso porém que a compaixão é uma construção laboriosa feita em sociedade. Divide o humano do bestial. Criminosos, hoje, lucram na razão direta de sua falta de compaixão, de sua desumanidade. Tenho sustentado que -se a modernidade política surge quando passam à esfera pública conceitos do direito privado romano- nossa época se caracteriza inversamente pela passagem, para a esfera privada, de conceitos que eram do âmbito político.
Escrito por Luiz Humberto P.V. Neto às 15h09
[]
[envie esta mensagem]
[link]

Artigo de Renato Janine Ribeiro
Paradigma individual O príncipe de Maquiavel, sem garantia de triunfar num mundo sem regras, hoje é paradigma de indivíduos que já não têm parâmetros prontos para a vida profissional e pessoal -vivendo no chão ensaboado do "condottiere" maquiaveliano. Por que não pensar, então, que o nazismo pode também estar presente em indivíduos -que agem com igual falta de compaixão, mesmo sem ter o projeto hitlerista de dominar o mundo? Há nazismo quando um grupo ou um indivíduo busca extirpar as últimas marcas de humanidade. Continuo vendo razões contra a pena de morte: o risco do erro judicial irreparável, a vergonha que é o Estado matar. Mas as estatísticas mostram o fracasso do Estado em recuperar o criminoso, tarefa que parece exigir dedicação quase religiosa. Ouvi o padre Júlio Lancelotti [da Pastoral do Menor] dizer que a liberdade assistida, alternativa inteligente ao aprisionamento dos menores delinqüentes, para que eles trabalhem, estudem, saiam do crime, custaria seis salários mínimos per capita ao mês. É caro, embora talvez metade do custo da Febem, com a vantagem de que pode recuperar a pessoa para a vida inteira, enquanto a Febem faz o contrário. É a fábula do filho pródigo aplicada.
Frustração Na insuficiência das soluções leigas para os problemas do crime, não tenho visto saídas a não ser as marcadas pela religião e/ou por uma dedicação leiga da ordem do heroísmo, como a dos militantes de direitos humanos. Se houver salvação, está aí. E é difícil. Repetem-se as faixas do Rio contra o crime. A maioria esmagadora da população é contra o crime, quer compaixão. Mas, até agora, adiantou a indignação popular? O meio jurídico e político teve palavras de consolo e apoio para a multidão sofrida ou frustrou-a, como o juiz de menores que disse que o assassino jovem de João Hélio ficará três anos internado -e falou isso como se fosse normal? Como podem as pessoas falar tão friamente e querer compreensão? Os infanticídios não mudam minha defesa dos direitos humanos porque, como sustento em "O Afeto Autoritário" [ed. Ateliê], os direitos humanos não são só os direitos do suspeito perante a polícia (embora preciosos) mas também a igualdade dos sexos, o direito ao trabalho e a uma vida digna -e o direito de João Hélio a viver uma vida normal e longa. Mas me fizeram pensar no nazismo entre nós. Esta, que ninguém comentou, talvez seja a idéia mais original de meu artigo: a comparação do atual horror privado ao nazista. Parece que não se quer ver o nazismo aqui, na esquina. O século 20, o de maior progresso na história, foi rachado ao meio pelos totalitarismos, dos quais o pior foi o hitlerista. Remeti a duas idéias-chave. Primeira: dizer o horror é dificílimo, como sabe quem narrou os campos de concentração ou a tortura na América do Sul -assunto que no Brasil é calado, haja vista a crítica da imprensa ao processo dos Teles contra seu torturador. Foi tocante, na novela "Páginas da Vida", familiares de assassinados falarem. Porque não dizer -ou escutar- o horror corrompe a todos. Acentua o teor de hipocrisia na vida social. Esteriliza ainda mais a vida pública. A segunda idéia é a de que, se o nazismo é o inimigo do humano (do humano como valor, "humane", em inglês, e não apenas como descrição, "human"), se falar sobre ele é um esforço e refletir sobre ele é difícil, ele se situa nas exceções da nossa espécie. Institui-se como estado de exceção. Carl Schmitt [jurista alemão, 1888-1985] pensou a soberania não a partir do "nós, o povo", da regra republicana, mas da exceção ditatorial. A exceção vira regra. Para dizer o humano, prefiro Camus, que falava no caráter irredutível de cada sofrimento pessoal intenso. Nenhuma explicação dá conta do assassínio de um filho. Políticas podem resolver o problema mais adiante, mas nossa sociedade está cada vez mais ferida pelo extermínio do seu futuro. As soluções eram devidas ontem. Se não forem cobradas com muita intensidade, não virão nunca. Se a emoção crescente da perda injusta do filho ou da filha -isto é, o que jamais será banalizado, porque sempre será insuportável- se potencializar, cada um decidindo sua própria lei, que restará de nossos laços sociais ou, pelo menos, políticos?
NOTA Devo a Alberto Dines, Lenio Streck, Silvia Pimentel, Anita Novinski, Olgária Matos, Manuel da Costa Pinto, Edson Teles, Sara Albieri, Eric Calderoni, Yumi Suzuki, Newton Pimenta, Auxiliadora Nicolato e outros algumas idéias e expressões que aparecem neste artigo, cuja responsabilidade, porém, é minha.
Escrito por Luiz Humberto P.V. Neto às 15h09
[]
[envie esta mensagem]
[link]

Nu redundantemente natural
Modelos nus, fotografias, cenários, técnicas. Não é a nova edição da revista Playboy, mas a exposição De todas as formas, do fotografo brasiliense Kazuo Okubo. Os 40 painéis demonstram a nudez de forma diferenciada, com foco nos diversos tipos de corpo e não no padrão habitual de beleza.
As fotos da série Kitsch mostram como o artista pretendeu o trabalho. Os modelos pousam sem roupa, mas o ponto de atração visual vai ao rosto. Além da expressividade, há um quê teatral nas fotos. Maquiagens e tipificações lembram personagens dos palcos, telonas e telinhas.
Sem dúvida, a foto mais bonita da exposição é ______________(espero contribuição da competente colega jornalista Olívia Meireles Mão na Barriguinha). Kazuo Okubo usa como cenário as passarelas subterrâneas do eixão. E a iluminação natural dos dias vistos lá de baixo. A beleza reside no erotismo. A gravura exala romantismo e sensibilidade. Nus, os modelos se beijam e se agarram, mas, em nenhum momento, transcendem a tênue linha do erótico ao pornográfico.
O uso da luz também é marcante nas obras. Na foto citada acima, ela exerce papel importante no contraste e na direção do foco visual. O corpo dos modelos fica escuro, com luminosidade somente nas bordas. Que, além de criar um movimento de inserção de luz — como se está chegasse ao observador —, atrai as atenções ao casal. Uma inteligente inversão, ao invés da clareza de detalhes, foca-se o escuro, o misterioso, apenas contornado pela luz.
A luz está presente, com igual importância, na parte externa da exposição. Ou seja, na disposição das lâmpadas de croica da galeria. Okubo as posicionou de acordo com cada fotografia; para assim, revelar detalhes importantes. E, conseqüentemente, “jogar para baixo do tapete” por menores, ou no caso dos painéis, em minha opinião, genitais. Como já dito acima, as expressões faciais são muito mais exploradas, tanto no aspecto impactante como no belo, que o apelo natural da nudez. Tática esperada. Afinal, trata-se de um artista destinado a mostrar o corpo e suas formas e não chocar pelo nu indiscreto, mas sim inquietante.
Pê e ésses...
Exposição De todas as formas, com fotografias de Kazuo Okubo Local: Caixa Cultural - Brasília, Galerias Piccola I e II Visitação: De 14 de fevereiro a 11 de março Horário: De 9h as 21h
Escrito por Luiz Humberto P.V. Neto às 15h54
[]
[envie esta mensagem]
[link]

Teoria ou Prática?
Teoria ou prática (não é nenhuma referência direta ao IESB)? É debate antigo, que já proporcionou brigas e discussões acaloradas em congressos, sindicatos e mesas de bar. A inspiração para voltar ao tema são duas: a matéria do Correio Braziliense, dia 26/02/2007, (devo o nome, mas em breve será postado) e o filme Erin Brockovich — Uma mulher de talento.
A matéria do Correio tratava dos cartórios que estão na mão de filhos, sobrinhos, irmãos dos titulares, mortos ou aposentados. Muitos destes familiares não são formados em Direito, nem mesmo cursam a faculdade. A maioria apenas concluiu o 2° grau. Porém, em sua defesa eles alegam que trabalham há vários anos nos estabelecimentos de registros.
O filme fala sobre Erin: divorciada, desempregada e mãe de 3 filhos batalha por um emprego. Depois de perder uma ação, ganha emprego de arquivista no pequeno escritório que a defendeu. Ao ver exames médicos no processo imobiliário contra Pacific Gás & Eletric. Assim, ela decidiu investigar e exerceu o papel de advogada das famílias vítimas de contaminação. Em uma passagem ela questiona a competência da advogada formada, com quem dividi o caso.
No primeiro caso, sou favorável ao diploma. Afinal, é exigência da lei. Salvo engano, é regra constitucional que após saída do titular, o estado deve realizar, em até 6 meses, concurso público e durante o período de carência um substituto deve ser nomeado. Já na situação do filme, é evidente que Erin não teria conseguido nada caso não houvesse advogados no caso. Entretanto, ela exerceu a função muito melhor que vários “bacharéis”. Ou seja, o diploma no Direito se faz necessário o diploma e, automaticamente, o curso superior e a reserva de mercado.
Após essa grande introdução (peço perdão, pois aqui mudo a carreira em foco. Afinal, minha realidade é a Comunicação e não o Direito), transfiro essa situação para o Jornalismo. Em 1969, foi regulamentada a profissão de jornalista e, automaticamente, criada a reserva de mercado. Ou seja, somente profissionais diplomados podem exercer a função de jornalistas.
Acredito que em 1969, fosse esta a necessidade da categoria. Porém, atualmente, é, no mínimo, dispensável. A proliferação de novas tecnologias (Internet, TV digital) transformam qualquer cidadão com acesso ao cyberespaço em difusor de informações. Sem, necessariamente, os ditames do jornalismo normal. A reserva de mercado poderia, então, somente restringir-se às mídias tradicionais (TV, rádio e impressos)? Meios de principal foco nas universidades. Afinal, é ainda mal-visto na academia o jornalismo de transição tecnológica (pois as mídias ainda não foram totalmente convergidas).
Nessa mesma linha, é fácil pensar que a transição levará ao caos as mídias tradicionais. Por fim, para não me estender mais, digo que para a mídia tradicional sobrevir é preciso várias coisas, destaco três:
1- Alteração na promiscuidade das relações com o poder público. Políticos proprietários de meios de comunicação legislam em causa própria, e contribuem para monopólios midiáticos.
2- Mudança de postura. Ao invés de se considerar atriz política, a mídia deveria considerar-se mediadora da situação. Não obstante, não se omitindo da opinião e da posição.
3- Associada ao item 2, o retorno à verdade. Nas últimas eleições presidenciais, ficou claro o porquê da perda de credibilidade da grande mídia: a ausência da verdade.
Escrito por Luiz Humberto P.V. Neto às 10h31
[]
[envie esta mensagem]
[link]

mais um......
Aos meus poucos leitores, não estou com preguiça de tratar do tema e, assim, publico somente artigos de jornais, no caso jornal. Ainda é ruim ficar muito tempo sentado, graças à cirurgia que fiz. Em breve, estarei de volta.
Além da indignação
Renan Calheiros, presidente do Senado
(Texto publicado originalmente no jornal Correio Braziliense, dia 21/02/2007)
Indignação é pouco, muito pouco. A dor e a revolta diante do assassinato brutal do garoto João Hélio — e da morte do menino Vinícius, queimado vivo em Bragança Paulista com a família, e dos passageiros carbonizados em ônibus incendiados por traficantes no Rio, e do martírio da professora da linha 174, e da morte estúpida da socialite Ana Cristina Johannpeter, e dos milhares de adolescentes e crianças corrompidos pelo tráfico, e de tantas e tantas barbaridades promovidas pelo crime organizado — precisam dar lugar a um movimento nacional contra a violência irracional que mantém brasileiros, de Norte a Sul, reféns do medo e da falta de esperança. Não é possível que nos deixemos acovardar pela força do crime organizado. Nem é possível que continuemos a gritar por justiça e exigir medidas de emergência apenas em momentos de comoção nacional. Também é inútil o jogo de acusações em torno da responsabilidade sobre a explosão da criminalidade. Governo federal, governos estaduais e municipais, legisladores, Judiciário, entidades de combate à violência, educadores, formadores de opinião, temos todos que trabalhar juntos na construção de uma política permanente de segurança pública. É claro que precisamos aperfeiçoar nossa legislação penal, que está obsoleta, ultrapassada. Também é claro que podemos — e devemos — rediscutir a questão da maioridade penal, exigência de muitos setores da sociedade. O Estatuto da Criança e do Adolescente não é intocável. Mas não adianta aprovarmos as melhores leis, nem reduzirmos para 16, 15 ou 14 anos a maioridade penal se não houver recursos suficientes para a segurança pública no Brasil. Recursos para o combate ao crime e, principalmente, para a prevenção da violência. Policiamento nas ruas, presídios modernos, monitoramento de áreas perigosas, polícia e agentes penitenciários bem preparados e bem pagos, com moradia digna, reeducação de menor infrator, combate ao tráfico de drogas e de armas, tudo isso custa dinheiro. O sistema penitenciário tem um déficit de quase 140 mil vagas e a superlotação torna os presídios um caldeirão sempre prestes a explodir. As unidades de internação de menores, em péssimas condições de funcionamento, são escolas do crime. E os bandidos chegam a ter armas mais sofisticadas que nossa força policial. Se quisermos reverter as estatísticas vergonhosas que apontam mais de 50 mil homicídios por ano no Brasil, temos que investir pesado em segurança pública. Os dados do Sistema Integrado de Administração Financeira deixam bem claro que esta não tem sido uma prioridade: nos últimos quatro anos, a segurança pública ficou com pouco mais de R$ 2,4 bilhões do Orçamento federal — 62% do que estava previsto nos Orçamentos de 2003, 2004, 2005 e 2006. A proibição do contingenciamento das verbas destinadas à segurança pública foi um avanço significativo. De acordo com o projeto aprovado na última semana pelo Senado Federal — e que ainda tem que passar pela Câmara -, o governo só poderá bloquear dinheiro dos programas de segurança em caso de calamidade pública, impossibilidade de execução orçamentária ou redução de arrecadação. Outra proposta em estudo, de minha autoria, prevê, além do contingenciamento, a obrigação de aplicação de um mínimo de recursos em segurança por parte da União, dos estados e dos municípios. A regulamentação da lei de crimes hediondos, com o aumento do prazo para progressão do regime fechado para o semi-aberto é outra medida essencial, assim como a instalação de bloqueadores de celulares nos presídios e a conclusão da reforma infraconstitucional que vai acelerar os processos judiciais. Também é preciso concluir a votação do pacote emergencial contra a violência aprovado pelo Senado no ano passado — são 10 projetos da maior importância, entre eles o que instala um regime disciplinar de segurança máxima para presos perigosos e o que aumenta o prazo de prescrição de diversos crimes. É ilusão, no entanto, investir em segurança pública sem investir na educação e na geração de emprego para jovens carentes. Mais do que propostas, precisamos de vontade política. Para garantir o crescimento econômico, com distribuição mais justa de renda e de oportunidades. E para acabar com a certeza da impunidade, que alimenta a criminalidade e multiplica as chances de mais uma tragédia como a de João Hélio, de Vinícius e de tantas vítimas anônimas pelo Brasil afora.
Escrito por Luiz Humberto P.V. Neto às 15h33
[]
[envie esta mensagem]
[link]

Mais um que ninguém vai ler
Mais um texto importante, publicado no Correio, que só devem ler três palhaços no salão.
Redução da idade escolar
(Texto do Senador da República Cristovam Buarque. Publicado no Correio Braziliense, dia 17/02/2007)
Toda vez que um crime bárbaro é cometido, surge movimento em defesa da pena de morte e da redução da maioridade penal. Surge também o movimento contrário, em nome dos direitos humanos. Esse debate, a meu ver, está equivocado. A redução da maioridade penal e a pena de morte não reduzem a violência. Em uma sociedade desarticulada como a brasileira, com o grau extremado de exclusão decorrente do disfarçado nazismo da apartação, os criminosos que cometem crimes hediondos já não dão valor à própria vida, nem sequer à própria liberdade. Não deixarão de cometer barbaridades por causa de risco da prisão mais longa ou de serem condenados à morte. Da mesma forma, a redução da maioridade penal é perfeitamente justificável do ponto de vista da vingança. E é natural que todos nós sintamos algum desejo de vingança diante de atrocidades contra vítimas inocentes, principalmente se forem crianças, como o crime brutal recentemente cometido no Rio de Janeiro, vitimando o pequeno João Hélio. Ao mesmo tempo, é também um equívoco tratar todos os menores da mesma maneira. Os últimos acontecimentos têm mostrado que há adolescentes infratores que merecem tratamento diferenciado. Alguns devem ficar presos por mais tempo, em função das suas características e do crime cometido. A solução imediata para esse problema é permitir que o sistema judiciário, com base nas informações e no discernimento dos juízes, trate os adolescentes de modo diferenciado. Dessa forma, a maioridade penal, para o conjunto dos jovens, permanece a mesma, mas a sociedade passaria a dispor de instrumentos para se proteger contra determinados infratores. A discussão da redução da maioridade, como da pena de morte, também traz o risco de nos desviarmos do enfrentamento pleno da questão da violência. De pouco adianta apenas prender criminosos, se não pararmos a fábrica de violência que é a sociedade brasileira. A pena de morte e a redução da maioridade penal dariam a impressão de que tudo estaria acomodado, quando, na verdade, não basta apenas justiça, é preciso paz. A justiça se faz punindo os criminosos; a paz, reduzindo ou eliminando a violência. Se a justiça se faz com cadeia e policiais, a paz só se faz com emprego, escola e igualdade de oportunidades. Isso reduz a violência e expande a paz. Sei que a defesa de medidas como a pena de morte e a redução da idade penal sensibiliza os eleitores, principalmente em momentos de espanto, como o que estamos atravessando. O raciocínio puramente eleitoral levaria à defesa dessas medidas. Mas o enfrentamento do problema, e a busca da solução definitiva, não podem ficar restritos às manifestações de indignação e espanto. Devem manter a visão de que o problema da violência precisa da repressão nas ruas, mas, também, e sobretudo, de uma revolução. Essa revolução já não virá da virulência política, de guerrilhas e fuzis, nem com o risco de uma convulsão econômica. Ela pode ser feita de forma doce, com lápis, professores e escola em horário integral para todas as crianças, ao longo de toda a infância e a adolescência. A revolução não está em reduzir idade para se entrar na prisão, e no tempo máximo de permanência lá, mas, sim, na redução da idade de ingresso e no aumento da permanência na escola de qualidade: entrar aos quatro anos e sair aos 18. Em uma sociedade em que crianças entram na escola aos sete anos e saem aos 11, reduzir a maioridade penal para todos é uma solução de avestruz, de alguém que não quer enfrentar o problema.
Escrito por Luiz Humberto P.V. Neto às 12h37
[]
[envie esta mensagem]
[link]

|